Alegres casinhos
As diversas profissões oferecem futuros muito diferentes. Quem quer ser rico, não deve escolher a política. Até pode passar por lá, mas não deve acampar. Meta-se no futebol, se tiver jeito.

Esta é daquelas difíceis, temos de admitir. Isto não tem resposta fácil, nem difícil. Talvez não tenha resposta, como tantas coisas no mundo, que depois até acabam por ser bons negócios. A ciência não dá tanto dinheiro quanto remunera o desconhecimento, por exemplo, mas isso agora seria outra discussão e o tema de hoje já nos dará água pela barba.
Por um lado, não, não devemos ter governantes com investimentos em áreas que tutelam ou que tutela o colega do lado. Parece lógico, porque resulta numa vantagem. Se eu sei o que é decidido em Conselho de Ministros - ou o que vai ser proposto na Assembleia da República e se passa ou não -, tenho uma vantagem em relação a toda a concorrência. No limite, se eu estivesse no Governo, montava um grupo empresarial, com tantas empresas quanto pastas ministeriais.
Desde logo ao nível da consultoria, seria seguramente o principal player de mercado - como eles dizem. Quem é que não contratava os meus serviços!? Tenho a informação, tenho os contactos, só um louco não contrata a minha InsideGov Consulting, Lda.. Minha, não. Da minha mulher. Ou dos meus filhos. Ou de um primo. Minha é que não porque sou uma pessoa extraordinariamente séria, por isso cedi as quotas a alguém com quem passo o Natal.
Graças a este absurdo, é fácil perceber que, em teoria, um governante não deve ter negócios. Mesmo nos negócios - veja-se a ironia - os “negociantes” estão limitados por regras. Lá está, é graças à informação que possuem. Se eu estou na posse de uma informação ainda não divulgada mas que seguramente fará alguma coisa perder ou ganhar valor, posso então gerar avultados lucros. A prática é, portanto, proibida. Ou seja, até nos negócios - até nos negócios! - há regras que visam travar a vantagem que, bem vistas as coisas, distorcem o mercado.
Tudo isto era por um lado, agora vamos ao outro. Neste, então, também não queremos governantes que não saibam o que é uma empresa, o que é um negócio, o que é a vida. Não queremos apenas burocratas, académicos e estudiosos. Ao longo dos anos, temos sentido muito isso. Governantes que não sabem o que é pagar salários porque nunca pagaram nenhum e os seus pais também não, nem os seus avós. Não há mal nenhum nisto - atenção -, mas se pensarmos em governos constituídos apenas por governantes sem esta experiência, é natural que acabem por ter uma visão preconceituosa da economia.
O patrão é sempre ladrão. Repare-se que até já em relação à política se tem defendido que não se pode dizer que são todos corruptos - e muito bem -, mas em relação aos empresários, se alguma riqueza criaram, então foi à custa de alguém. Este preconceito e esta guerra que nunca cessou fogo - uma ferida da revolução que não se tratou -, tem-nos custado algum desenvolvimento.
Mas aqui estamos, num problema complexo. Que tipo de governantes queremos? Chegámos a um ponto, na vida política nacional, em que se escrutina o passado dos governantes até ao momento do parto. Curiosamente - agora me ocorre -, mal acabam de nascer, agarram-se logo à mama. Razão tem o povo.
Adiante. Pese embora a complexidade da questão, temos de ensaiar uma solução, até porque gastei a carta de dizer que não sei, nem faço ideia, numa reflexão recente. Sinto-me, aqui, obrigado. Neste caso, a resposta estará, como a virtude, no meio. Precisamos, sim, de governantes sem ambições de barcos em marinas ou vinte casas, profundamente dedicados à causa pública - não interessados nela -, mas também precisamos de governantes com experiência em construir, falir, contratar, financiar e liquidar impostos. Precisamos desta espécie de checks and balances. Várias realidades, que acabam por partilhar conhecimento e experiência, vigiando-se nas falhas de cada um.
Lamentavelmente, nos casos que vamos conhecendo, não é tanto desta experiência que se trata. Os negócios são sempre os mesmos: o famoso imobiliário. É o investimento mais seguro, eles de arte não sabem, filantropos também não são, compram terrenos e casas - que é o que faz qualquer pessoa que se apanha com dinheiro. O costume.
Certo é que nunca assistimos a suspeitas em relação a governantes por terem um restaurante ou uma carpintaria. Uma escola de música. Ou de condução. Uma drogaria centenária. Não, falamos sempre de negócios fáceis, altamente lucrativos, com custos operacionais muito baixos. Negócios que só são bons para quem os detém, pois para a própria economia são só mais ou menos.
E aqui começamos a encontrar-nos com o problema, que não é tanto de governantes com negócios, é mais sobre a seriedade das pessoas que nos governam. Desconfiamos sempre de patos bravos na política, cuja riqueza foi toda gerada através de contratos públicos ou compadrio. Ou seja, o problema não é tanto o político ser rico, mas é imaginar, com algum grau de certeza, como foi gerada essa riqueza. Um político rico não assusta nenhum eleitor. Mas um político que ficou rico na política, isso já mete o eleitor em alerta. Depois passam as empresas para as mulheres, filhos e primos, como se o país não quisesse regras e respeito, mas apenas ser enganado. Engana-me, que eu gosto.
Um governo rico - e aqui não me refiro à riqueza material -, é aquele que tem estudiosos, académicos, cientistas, funcionários públicos, empresários, agricultores, médicos, professores, jogadores de futebol, não interessa: é aquele que tem pessoas sérias e com experiência de vida, em quem o povo confia. Não se quer políticos emprestados de grupos económicos de má fama - como sempre aconteceu com o Grupo Espírito Santo -, nem quem enriqueceu sempre a pairar sobre o poder, debicando aqui e ali, ora dentro, ora fora, em governos, em autarquias, mas quase sempre à mesa de um restaurante. Esses são aqueles que usarão, sim, as suas funções, sejam elas quais forem, para o processo de enriquecimento, ainda que a sociedade esteja em nome do cão e até pode ser do cão do vizinho.
Impõe-se uma escolha. O político, a juíza, o jornalista, a empresária. As diversas profissões oferecem futuros muito diferentes. Quem quer ser rico, não deve escolher a política. Até pode passar por lá, mas não deve acampar. Meta-se no futebol, se tiver jeito.



Primeiro pensam que comemos gelados com a testa, depois tentam enfiá-los no...
Um cargo público exige transparência ponto final.
Ter uma empresa não é sinónimo de que ela esteja activa e se exerça actividade através dela. Não vejo qualquer problema em alguém que desempenha um cargo público ter participações em sociedades ou familiares com participações em seu lugar, desde que declaradas. O que é muito discutível é exercer directamente ou por intermédio de terceiros actividade nessas empresas paralelamente, beneficiado de informação e contactos privilegiados. Não é qualquer um que exerce um cargo público e tal cargo obedece a obrigações especiais e escolhas pessoais e profissionais. Não é um favor que se faz à comunidade, mas sim privilégio. Saber lidar estar preparado para o escrutínio é também um sintoma de civilização e desenvolvimento (veja-se um caso dois países nórdicos). Não pode ser encarado como devassa.