Mestre André
No terceiro capítulo da crónica das legislativas, falamos de crescimentos. Por um lado, do Chega. Por outro, da preocupação.
No momento em que são convocadas as eleições, acreditei que o Chega estava em maus lençóis. Andava atrapalhado com alguns casos e a AD tinha atacado uma parte do seu eleitorado. Entretanto, as notícias vão sendo “boas” para o partido. Falo das notícias do país, aquelas relacionadas com imigrações, inseguranças e corrupções. Tínhamos matéria quase todos os dias. Era então inevitável concluir que, aos olhos do povo, o mestre André tinha razão. Sempre teve razão.
Já mais para o fim da campanha oficial, o mestre André passa mal. Tem um achaque, uma coisa aparatosa. Foi de charola, transportado para as urgências de um hospital em duas ambulâncias. Duas ambulâncias porquê? Tinha-se partido em dois? Não sabemos, mas o caso parecia sério. Não era, felizmente. Umas horas depois, tenta novamente participar na campanha, mas é levado novamente de charola. Se não era grave inicialmente, agora não era gravíssimo. Chegamos então ao último dia de campanha, já em Lisboa, e aparece o líder do Chega forrado de pensos, visivelmente combalido e emocionado por Deus lhe ter dado forças para ali estar. Ao entrar no carro, imita um gesto de Donald Trump, fight, fight, fight.
Percebi neste momento que o Chega podia ir muito longe. O mestre André tinha posto o dedo na ferida do povo português. Nestas coisas, os portugueses não falham. Com a saúde não se brinca, seja do ponto de vista do enfermo ou do enfermeiro. Ainda hoje não se pode fazer uma análise objectiva do que foi feito no tempo da pandemia. Converteu-se em dogma. Marta Temido só não é santa porque é do PS. Fosse do CDS e já havia autocarros a caminho de adorá-la onde estivesse. António Costa recebeu uma maioria absoluta e o Almirante vai a Presidente da República.
Ora, o mestre André tem esta noção e tem também a lata necessária para pôr um país a rezar por si depois de um copo de água lhe cair mal. Pela minha parte, ao ver as imagens do primeiro atentado, pensei que o Chega tinha de marcar um congresso para escolher um novo líder. Pedro Pinto, claro. Não tem refluxo e mete picante nas torradas, logo de manhã.
Certo é que a estratégia desta campanha resultou - mais à frente voltamos a ela - e o Chega tem um excelente resultado. Se tem uma vitória ainda não sabemos, é preciso que tenha conseguido quebrar o bipartidarismo e a espinha ao Luís, sendo que assim ficava o líder da AD nas orações do povo. Mas o resultado é objectivamente muito bom. Cresceu e multiplicou-se. O resto do país ainda não está em si, mas esta é a realidade. O Chega será a segunda força política e líder da oposição, quando ainda há pouco tempo (2019) estava no debate dos partidos sem assento parlamentar.
A explicar este fenómeno temos o facto de o mestre André resultar junto da população. Muitos já tentaram isto, mas nunca foram felizes. O líder do Chega consegue passar aquela imagem de homem do povo. A campanha correu-lhe muito bem, até ia morrendo várias vezes. Enfrentou adversários fracos ou fragilizados e enredados numa das suas bandeiras - a corrupção, onde cabe tudo. Diz também o que as pessoas querem ouvir e que mais ninguém defendia, tendo aglutinado ao longo destes anos todos os temas deixados à mercê por um espaço tão moderado quanto estúpido, perdoem-me a franqueza. O mestre André escolheu bem as suas lutas e tem muitas vezes razão. Bastou-lhe aproveitar as deixas.
Sucede - e aqui começam os problemas a sério - que o mestre André é uma ameaça enorme à democracia portuguesa. Já não é apenas o típico líder populista a tentar alcançar o poder para se moderar enfim. Tal até pode ter sido a ambição inicial, mas os ventos internacionais que animam uma nova ordem podem ter dado outras ideias. O discurso mudou e detectamos vários sinais de um risco autocrático a crescer. Falamos da divisão entre “nós” e “eles”, uma identidade totalmente implantada, até já nas bases de apoio. Temos também a ideia de “Salvar Portugal”, que representa o clima de medo e insegurança que precisa de um “protector” do povo contra os seus inimigos. E este é aquele que se converte em tirano, porque o protector torna-se lobo. Tudo isto está nos livros e não é de agora, remonta a Platão.
Por exemplo, o discurso de vitória do mestre André começa com uma crítica às empresas de sondagens e até aqui tudo bem, já se tinha visto muitas vezes. Eu também não consumo. O problema é que, se repararmos bem, há pontos do discurso que vão para além da crítica e admitem já uma perseguição não só às empresas, mas também aos seus donos - mencionados literalmente. Só não vê o que ali está quem não quer.
Não qualifico, como vejo por aí, quem vota no Chega. Compreendo as razões e o descontentamento. Não são mais lorpas que os outros, até porque, como se vê, muitos deles votavam noutros partidos e não me recordo de serem estúpidos noutras eleições. Mas é preciso dizer-lhes que o mestre André tem outros planos e não vai nada acabar com a corrupção. Talvez reforce a segurança, mas limitando várias liberdades e controlando quem regista os dados, depois de já ter entrado por várias empresas, como quer entrar pelas de sondagens.
O mestre André mente todos os dias e esta campanha provou que é capaz de tudo. A questão da saúde é o mais evidente, mas recordemos também aqueles ciganos que protestaram na sua campanha. Eu nunca tinha visto grupos de ciganos a aparecerem assim perante câmaras de televisão, gritando “racista, racista, racista” e “PS, PS, PS”. Também nas redes sociais, o Chega usou imagens falsificadas e já comprovadamente falsificadas como material de propaganda. Apareciam vídeos de imigrantes a dizer que recebiam 900 euros da Segurança Social para passear. Os imigrantes riam-se e diziam que sim, que não trabalhavam, só passeavam, recebendo 900 euros. Isto foi partilhado pelo líder do partido.
A minha pergunta é só uma: Alguém acredita nisto? A pergunta é retórica, porque são muitos. Mas é preciso combater isto, que nem desinformação é. É burla. O eleitorado está a ser enganado. Reformados com pensões baixas ficam com certeza revoltados - eles e os seus familiares - ao saberem de imigrantes que estão por aí a passear e a receber 900 euros. Mas não é uma realidade. Há muitos abusos - de imigrantes, cidadãos nacionais, de empresas, de todos - e os partidos devem combatê-los sem contemplações; mas o Chega fabricou casos nesta campanha, o que vai muito para além daquela mentira tradicional da política, que lamentavelmente todos utilizam.
Perante isto, permaneço sem conceber a ideia de negociações entre a AD e o Chega. É preciso ouvir uma vez mais o eleitorado, mas não é preciso ouvir quem não é confiável e acaba de demonstrar que é capaz de tudo. Este deve apenas ser combatido, não por “nós”, mas por todos, demonstrando o engodo. Uma parte substancial do eleitorado quer, sim, mais segurança, mais controlo da imigração e um combate sério e implacável à corrupção. Isto faz-se com mais meios e uma reforma da Justiça. Estamos à espera de quê? Há uma maioria enorme ao centro e o dobro dos eleitores em casa, sem interesse em votar. É preciso acordá-los e combater as intenções não é de um partido, nem sequer de 1 milhão e 300 mil eleitores, mas apenas de um homem. Foi quase sempre foi assim.
O mestre André pediu, nesta campanha, apenas uma oportunidade. Só pede uma porque sabe que não precisa de pedir a segunda.




"O mestre André pediu, nesta campanha, apenas uma oportunidade. Só pede uma porque sabe que não precisa de pedir a segunda."
Brilhante.
Só duas palavras: Muito Bem !