Nós, os obsoletos
É preciso uma união de trambolhos contra o egoísmo da Inteligência Artificial, capaz de tudo menos de sobreviver por si. No fim, podem sobrar apenas uma data de 'centers'.

Bem comparado, a Inteligência Artificial é uma espécie de Frankenstein, só que para pior. O monstro inventado por Mary Shelley, ao pé de todo este desenvolvimento tecnológico, era uma pessoa bastante sociável, muito fiel e boa companhia. Tinha também outra qualidade: não existia. Um monstro que não existe é sempre menos monstruoso.
Não me interpretem mal. Claro que a Inteligência Artificial é uma coisa deslumbrante, um computador e peras. Nas mais diversas áreas, este nível de computação trará inúmeros benefícios. A Saúde é um bom exemplo, porque nos preocupa mais do que, sei lá, a logística. Nas consultas, desde há uns anos, muitos médicos olham mais para o computador do que para o paciente. Ora, faltará pouco para ser apenas um computador a olhar para o paciente. Perdão, utente. Ou segurado.
Pela rapidez com que executa tarefas com uma informação infinita e por nunca se queixar, reclamar ou estar sindicalizada, temos de reconhecer — nós, a Humanidade — que a Inteligência Artificial trabalha muito melhor. Na verdade, só ganhamos às máquinas num aspecto. No estilo. Temos mais, em parte graças à patine. Somos como um automóvel clássico, que vence qualquer modelo moderno apesar de perder em todos os parâmetros técnicos ou de desempenho. Temos prazer em conduzir um Alfa Romeo clássico, enquanto simplesmente guiamos o último Mercedes ou Tesla. Ou estes até já se guiam sozinhos e nós agradecemos. Passaria pela cabeça de alguém activar um sistema de condução autónoma num Ferrari 250 GTO, por exemplo?
Neste cenário tão pessimista para o nosso lado, o que nos pode então salvar? Salvo melhor opinião, o compadrio. Temos de nos proteger uns aos outros e ainda nem toda a gente percebeu isso. A velha camaradagem é o que nos resta. Ser uns para os outros. Os obsoletos têm de se unir e recusar este canto da sereia artificial, capaz de tudo menos de sobreviver por si. No fim, podem sobrar apenas uma data de centers.
Entretanto, quem está a substituir pessoas por computadores terá de pôr um dos computadores a definir e implementar uma estratégia de marketing para vender os seus produtos ou serviços aos tais computadores que, não auferindo qualquer rendimento, não tendo vícios nem hábitos de consumo, devem ser péssimos clientes.



Por acaso, perguntei à minha mulher se ela me trocava por um tablet de doze polegadas e dezasseis milhões de cores.
Então não é que ela me perguntou se era com pen ou não!
Com respostas destas, a união é mesmo a única coisa que nos resta... ;))