Operação 'all in'
A estratégia política do Governo, estritamente desse ponto de vista, é muito bem pensada. Quanto ao resto, não soltava já os foguetes. É preciso ter cuidado com as percepções.
Não me lembro de um consenso tão grande em torno de uma escolha. Por não ter dado ainda com uma única dúvida - das metódicas -, já nem falo em crítica, diria que a escolha de Luís Neves - até agora director nacional da Polícia Judiciária -, para ministro da Administração Interna, é unânime.
Não tenho tantas certezas, reconhecendo, contudo, que é uma das escolhas políticas mais interessantes das últimas décadas na política portuguesa. O interesse, deste meu lado, vem é também do risco que ela pode representar. Vou partilhar as minhas dúvidas.
A competência enquanto director nacional da Polícia Judiciária, essa, não posso avaliar. Não tenho competência para avaliar directores de judiciárias. Não conheço os números, os actuais e os anteriores - não faço pesquisas rápidas nas inteligências artificiais. Não conheço o ambiente e a opinião dos operacionais da PJ sobre a actual direcção. Desconheço, portanto, a competência real de Luís Neves para o cargo que agora deixa.
Sei, isso sei, que está publicamente muito bem visto. Mas também sei que tem sido um director nacional da Polícia Judiciária muito activo em termos de imagem. Desde sempre, Luís Neves apareceu, comunicou e comentou até aspectos que são do foro da política. Ou seja, afastou-se das variáveis técnicas e criminais para responder a alguns temas da política ou da governação. Corrigiu discursos demagógicos sobre a insegurança e decretou “guerra” tanto às organizações de extrema-direita, como às suas ramificações noutras forças de segurança. Paralelamente, batiam-se recordes de apreensões e capturas. Tem aí origem, claro, a sua boa imagem junto da opinião pública.
Esta é a primeira ameaça. Estamos no campo da imagem, da boa comunicação e do estado de graça. É a única certeza que temos. Tanto da imagem do próprio escolhido, como da que terá pesado nesta escolha pelo primeiro-ministro e é por aí que começamos.
Como creio estar sobejamente provado, Montenegro pensa primeiro, seja qual for o caso, na imagem e popularidade do Governo. E dele próprio, diria. É isso que preside a todas as escolhas e todas as decisões. Neste caso, tinha um problema. Já tinha falhado duas vezes numa pasta que tem enorme impacto na tal popularidade. Fosse qual fosse a escolha para o Ministério da Administração Interna, não podia falhar; ou, pelo menos, tinha de ser consensual. Quando as escolhas são consensuais, falhamos todos.
Se repararmos, o Governo tem andado a colher os louros do que corre bem e a distribuir as responsabilidades no que corre mal. Repare-se nesta resposta aos efeitos das tempestades: será a sociedade toda a “pensar” no futuro. Um governo que tem sido arrogante e governado com uma maioria absoluta que não tem - jogando com a instabilidade que Chega ou PS podem ser acusados de provocar - aparece subitamente humilde. De repente, somos todos responsáveis pelo passado e pelo futuro. Vamos todos dar as mãos e desenhar um plano. A responsabilidade é partilhada.
A escolha de Luís Neves faz parte desta estratégia. Agrada a todos e é uma escolha de quase todos. Não vem da área política do Governo - até tem sido, de certa forma, crítico da linha governativa, ou é tido como tal -, tem boa imagem; dir-se-ia, portanto, que é uma escolha irrepreensível e perfeita do ponto de vista da estratégia política do Governo. E o sucesso, ainda antes de tomar posse, está aí, com louvores em todas as esquinas.
Neste momento, a pasta mais difícil e quente deste Governo, a Administração Interna, saiu da esfera da sua responsabilidade. Se correr bem, foi uma escolha excelente do Governo e do seu primeiro-ministro. Se correr mal - porque, apesar da euforia, convenhamos que pode sempre correr mal -, falhámos todos. Isto, para qualquer parâmetro de avaliação de estratégias políticas, é muito bem pensado. O Luís Montenegro fica a dever uma ao Luís Neves, que aceitou.
Quais é que são as minhas dúvidas? Seja a boa imagem merecida ou mais as vozes do que as nozes, Luís Neves é um homem de acção. Não vai ficar a ver. Não vai cumprir calendário, vem para mexer. Já é, mas depressa se consolidará como a segunda figura do Governo, desafiando mesmo o protagonismo do primeiro-ministro. Constate-se que, mesmo enquanto director nacional da Polícia Judiciária, já tinha mais presença do que muitos governantes. Agora, no MAI, tudo é possível.
Este é o interesse, mas ao mesmo tempo a preocupação com esta escolha. Se Luís Neves for mesmo competente e capaz de vencer todas as “guerras” em que seguramente se vai meter - e em que já se metia, mesmo que nem todas sejam do conhecimento geral -, o país “resolve” um dos seus problemas mais sérios, na primeira grande reforma em muitos anos. Se conseguirmos organizar o MAI, isso é histórico e começamos logo a imaginar alguém com o mesmo perfil para a Justiça, para a Saúde, para a Economia; bom, até para liderar um governo. É este o nível de popularidade de Luís Neves. É daqui que parte, basta ver-se os comentários à sua escolha. O país está aliviado e esperançoso.
A preocupação é que, se corre mal, pode correr mesmo muito mal. Neste caso, não haverá meias-tintas. É o sucesso ou o descalabro. Animado vai ser e o país - a política - precisa destes abanões sem rupturas e sem populismos, dentro das regras democráticas e do quadro constitucional que temos e que serve perfeitamente, precisando apenas de afinações cirúrgicas, jamais de ataques de rajada.
Só não adiro ao consenso nacional que reina porque não me consigo livrar das tais dúvidas sobre a capacidade real, para além da comunicacional, do ex-director nacional da PJ e agora ministro da Administração Interna. A Polícia Judiciária tem apresentado bons resultados, mas é injusto não dizer que a Polícia Judiciária apresenta, desde sempre, bons resultados, a todos os níveis. É uma polícia muito competente. No caso das apreensões, elas têm sido fartas, desde logo porque o tráfico também.
Voltando à parte mais política desta direcção, não gostei de ver a imagem da captura de João Rendeiro como troféu de caça. Uma grande operação ficaria manchada por algo que não se deve tolerar, goste-se ou não do troféu de caça. Também não gostei de ver a PJ a anunciar que tinha travado um atentado terrorista numa universidade que poderia ter causado um número indeterminado de fatalidades, percebendo-se mais tarde que não era propriamente isso que estava em causa. Tanto quanto sei, o jovem foi absolvido do tal terrorismo e condenado por posse de arma, ficando com acompanhamento psicológico. É um resultado diferente daquele que foi anunciado, de forma muito sensacionalista, naquele dia. Criou-se uma percepção, perdoem-me a provocação.
Entretanto, lembremo-nos que o director nacional da Polícia Judiciária foi capaz de dizer, a meio de buscas na Federação Portuguesa de Futebol, que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol não era suspeito, isto com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol ao seu lado. Foi algo nunca visto. Erros cometemos todos, mas há uns que devem resultar em sinais de alerta e conter, pelo menos, alguma euforia.
A estratégia política do Governo, estritamente desse ponto de vista, é muito bem pensada. Quanto ao resto, não soltava já os foguetes. Não é bom fazê-lo com base naquilo que podem ser, lá está, meras percepções. Aprendi isto com o novo ministro da Administração Interna, a quem desejo o maior sucesso e que será elogiado, sem se poupar nos encómios, se se confirmarem as expectativas.




O tempo nos dirá se os mesmos que hoje o consideram "bestial" amanhã não o consideram uma "besta" nem seria a primeira vez que isso aconteceria.
Tenho de Luís Neves uma boa impressão. Como aliás toda a gente neste país, pelos vistos. Mas esse episódio com Fernando Gomes foi especialmente grave e pouco explicado. Cheira a Maçonaria por todo o lado... Vamos dar o beneficio da dúvida.