Pedido à Staples
Quando o cliente está dentro da loja, já não precisa de ouvir o anúncio, que em repetição só convida a sair. Para os funcionários ainda será pior. É tortura. Isto não é uma reclamação, mas um pedido.

Não vem isto a propósito de nada, mas também não tem de vir sempre. Desenjoamos, pelo menos, da pescadinha de rabo na boca em que se tornou o quotidiano.
Ontem tive de ir à Staples e fui mesmo, pois acabo por ceder às minhas necessidades. Em geral, gosto de papelarias. Em particular, também. Quanto mais anacrónicas, melhor. Canetas, cadernos, jornais, tabaco, jogos Santa Casa, gosto de tudo. A Staples é diferente, claro. É material de escritório. E é uma grande superfície. Não gosto de uma coisa nem de outra, mas acabo por encontrar lá coisas que não encontro noutros sítios.
Até aqui tudo bem. Lá chegado, começo a tratar do que me levou lá e levo algum tempo, porque, gostando até de fichas pautadas creme, perco-me um bocado. De repente, começo a sentir que já ouvi o anúncio à Staples nas colunas daquela loja. Sim, tinha passado há poucos minutos. Depois passou outra vez. E outra vez. E outra vez. E outra vez. Era sempre o mesmo. Se aparecesse um a dizer-me que os arquivadores estavam em promoção, pronto, era capaz de perceber. Mas era sempre o mesmo e aquele que também passa em diversos outros meios.
Comecei a estar então à espera dele. E lá vinha. Depois passou a ser tortura. O mesmo som, o mesmo tom, tudo igual, entre espaços, todos iguais. Não é preciso ser especialista em tortura para concluir que isto, ao cabo de umas horas, faz qualquer pessoa falar. Aquilo viola, sem discussão, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
À saída, depois de pagar - não se faz conversa antes porque o cartão pode não passar e depois ficamos um bocado desconfortáveis -, perguntei à simpática senhora se aguentava aquilo sem enlouquecer ou se estava medicada. Lá me explica que aprendeu a ignorar. O cérebro já não ouve. Terá sido natural, não teve de agrafar os ouvidos, mas via-se no semblante o sofrimento. Sem nunca ter dado parte fraca, porém.
Vamos então ao meu pedido à Staples. Eu estive ali uns 15 minutos, talvez. Sofri. Os funcionários estão ali horas. Aquilo é tortura. Tem de ser. Não por ser bom ou mau, mas apenas por ser repetitivo. Deve ser difícil passar um dia a ouvir aquilo. Vão com certeza “a ouvir” para casa. Não lhes faz bem.
É fácil melhorar as condições de trabalho daquelas pessoas. Com uma decisão simples, que pode ser tomada agora, sem qualquer prejuízo para a empresa. É que não faz sentido passar-se o anúncio nas lojas. O cliente já está lá dentro. Já escolheu as vossas lojas. No limite, graças ao efeito da tortura, sai mais cedo e acaba por consumir menos.
A passarem o vosso anúncio em lojas, sem parar, era bom que o conseguissem fazer nas da concorrência. Nesse caso, percebia. Tiravam os clientes de lá e levavam-nos até aos vossos espaços, sem anúncios a passar, com uma música agradável; o marketing tem várias teorias para isso. Uma teoria de marketing a recomendar a repetição do anúncio no sistema de som das lojas é que duvido que exista.
Atenção, isto não é uma reclamação. É um pedido singelo. Sinto que, feita uma avaliação de gestão muito simples, concluem que não faz sentido. Não faz sentido para o cliente, mas sobretudo não faz sentido para os funcionários. Suspeito que muitos, a partir de uma certa hora, já não tenham a mesma simpatia.
Experimentem então acabar com a repetição do anúncio e escolher música conveniente, de acordo com os cânones do marketing; ou não, que ainda seria melhor, porque o marketing às vezes está errado. Depois digam-me se os funcionários não estão mais felizes, a cometer menos erros, e os clientes mais satisfeitos e mais tempo em loja. Se for caso disso, podem oferecer-me um bloco de fichas pautadas creme. Não é preciso mais.
Entretanto, por falar em sons agradáveis, já está no ar o Dia de Reflexão da semana. É sobre as presidenciais. No início prometemos ir à Gronelândia e a Davos, mas esgotámos o tempo com os assuntos domésticos. Só é preciso ouvir uma vez, nem neste caso recomendo o loop.



Sim, é verdade. Os crânios do marketing estão sempre a fazer porcaria, convictos de que, acima da vulgar mente dos comuns mortais, criam ideias e conceitos muito além. Como os preços todos a €X,99. O massacre às pessoas por parte do assédio das operadoras, que já coloquei umas 200 em SPAM, as 20 caixas no LIDL e uma só aberta, duas, vá lá, com filas de quilómetros de clientes. Os atendimentos no McDonald's em que o operador atende duas pessoas em simultâneo, efetua pedidos, faz pagamentos e... depois tenho quase 80% das vezes, de voltar atrás porque se enganaram no pedido, e... por aí fora. Bem vindos ao progresso.😃
Muito bom :))