Qual debate?
A falta de esclarecimento é uma das ameaças à democracia, tão grande quanto o populismo, que também se aproveita dela. Dizia-se que esta segunda volta ia ter apenas um debate, mas não teve nenhum.
Aquilo, ontem, não foi um debate. E os outros, na primeira volta, também não. Mas falemos sobre o de ontem, que foi mais uma entrevista em simultâneo aos dois candidatos. Foram setenta e cinco minutos, apenas. Um jogo de futebol tem noventa e a nossa equipa joga todas as semanas, no mínimo, porque até pode jogar duas vezes na mesma semana. São mais quinze minutos do que deram aos candidatos à presidência para voltarem a falar de um país que tem muitos desafios pela frente e de um mundo que ainda tem mais.
Como é que se chama debate ou frente-a-frente a um evento em que os candidatos não podem debater, porque são interrompidos precisamente por estarem a debater, nem se podem enfrentar, porque temos de avançar para a próxima pergunta?
Numa altura em que tanto se fala das enormes ameaças que a democracia enfrenta, é bom lembrar que há mais ameaças para além do populismo. Não se salva o regime sem esclarecimento; o ideal era que fosse de todos, mas se fosse dos que querem ser esclarecidos já não era mau.
Em França, na segunda volta das últimas presidenciais, Macron e Le Pen estiveram quase três horas em debate. Estava previsto durar duas horas e meia, mas continuaram. É assim que deve ser. E estiveram mesmo frente-a-frente. Digo fisicamente frente-a-frente, não é de lado. Também não precisamos de três moderadores para dois candidatos, nem de ir para um museu na baixa da cidade. As empresas estão todas em péssima situação financeira, não há dinheiro, por exemplo, para se pagar a jornalistas ou para os jornalistas poderem fazer as suas investigações, mas depois investe-se em deslocar meios e mais meios para sítios deslumbrantes.
Bastava um estúdio, um simples estúdio. Não é preciso gastar, nem dinheiro nem tempo. Àquela hora, com certeza, estavam mais “telespectadores” agarrados ao YouTube a ver vídeos gravados com telemóveis em vãos de escada, do que aquele cenário lindíssimo. Para quê o luxo e a extravagância? Não é um espectáculo. Não devia ser, pelo menos. Mas está transformado num. São setenta e cinco minutos de um programa de entretenimento, para depois se seguir outro, com os comentários e as notas. Ganhou este, perdeu aquele, fez assim, disse aquela frase, franziu o sobrolho.
O candidato Seguro nem aceitou o debate das rádios, diz que não é preciso, que já se explicou muitas vezes. Também diz que o seu adversário quer debater para poder fazer a sua magia - a magia, neste caso, é fazer desaparecer a elegância e a verdade. É este o ponto em que estamos, com um candidato à Presidência da República a recusar um debate alegando que já se debateu muito. Na verdade, esteve setenta e cinco minutos de lado para o seu adversário, a discutir com ele e mais três moderadores. Com o trânsito que ontem estava em Lisboa, podem ter demorado mais tempo a chegar ao estúdio do que dentro dele.
Sempre que era preciso continuarem uma troca de ideias porque estavam a chegar a um qualquer osso da discussão, eram interrompidos. Com mais moderadores do que motas na concentração de Faro, era natural que cada um quisesse fazer alguma coisa, mas às vezes o papel é não fazer nada. Só precisávamos que levassem os temas certos e que garantissem que o povo conseguia ouvir e perceber. Fora isso, têm de deixar os candidatos debater.
A notícia de que há um candidato arruaceiro que não respeita nada nem ninguém, com todo o respeito, não altera nada. Os candidatos são o que são. Estes e os outros. Têm ou não maneiras, respeitam ou não o adversário e os jornalistas, isso faz parte e importa conhecer. Se um candidato quiser desapertar a gravata e meter um palito na boca, pode. O interesse destes encontros é conhecer as ideias e os próprios candidatos.
Nada disto aconteceu ontem e não há verdadeiro esclarecimento em Portugal. Essa é uma das ameaças à democracia, que se faz hoje em vídeos curtos na internet. Os eleitores afastam-se, desinteressam-se. Estão cansados das frases feitas, das perguntas repetidas e de mais comentários do que assuntos.
Para ser um debate da segunda volta das eleições presidenciais, precisávamos de duas horas e meia, com hipótese de prolongamento. As questões deviam centrar-se nos poderes presidenciais e tinham de ser colocados cenários. Seguro reclama que já disse tudo o que tinha a dizer, provavelmente porque as perguntas são sempre as mesmas e nisso vejo-me obrigado a dar-lhe razão. A legislação laboral e a saúde são os temas da moda, mas e a nova ordem mundial? Os desafios da Europa? As relações externas, que não são apenas com os Estados Unidos e os PALOP? E perante uma crise financeira séria, que não pode estar fora de equação, qual a intervenção? Sobre a queda de um Governo por questões de Justiça, como acabamos de assistir há dois anos, qual o entendimento? Em que casos se deve usar o poder de dissolução? Uma concepção do cargo mais presidencialista ou mais parlamentarista? Vetos de gaveta, sim ou não? Política de indultos e de condecorações? E sobre referendos? Quanto ao poder de demitir um governo, o que entendem por “regular funcionamento das instituições democráticas”?
Estas são questões que surgem imediatamente, mas há muitas mais, todas elas capazes de desenhar o estilo de presidência de cada um. Era o que devia interessar agora e só o podemos fazer por especulação. António José Seguro adivinha-se um Chefe de Estado pacato, um passatempo que não aquece nem arrefece. Já André Ventura faz a tempestade desta madrugada, Kristin, parecer apenas uma brisa. Mas estamos no campo das sensações e de coisas que parecem. Nunca os candidatos foram confrontados com o que serão confrontados em Belém. Também se perdeu muito tempo com revisões constitucionais, mas elas partem da Assembleia da República e não sei até que ponto a “opinião” do Presidente da República interessa assim tanto. Pode interessar, mas a existir uma pergunta concreta sobre este tema, teria optado por saber se, perante essa hipótese, admitiam demitir o Governo invocando o tal regular funcionamento das instituições democráticas.
Isto já obriga a sair das banalidades do tipo “não vejo necessidade de mexer na Constituição”. Pois claro que não vê, porque não tem esse poder, é de outro órgão. Ou também do tipo “isto é para rasgar e voltar a escrever”, coisa que também só podia ser feita através da força parlamentar e então interessava saber se o candidato em causa ia usar o seu partido no exercício do cargo.
Enfim, é o que temos e não é muito. Daquelas duas entrevistas em simultâneo, se fizermos um esforço para tentar aproveitar alguma coisa, António José Seguro continua a apresentar-se suficientemente vago para conquistar apoios dos comunistas até aos democratas-cristãos. Tem ar cândido, mas é menos simpático do que parece. Sabe mais o que não quer do que propriamente o que ambiciona.
Sobre André Ventura, mostrou - e confesso que me surpreendeu pela dimensão do problema - que não tem ideias ou estratégia mesmo em temas que estão entre as suas principais bandeiras. O caso da Justiça foi evidente, com propostas que lhe surgiram ali mesmo, durante o debate; mas também o da Saúde, em que invocou uma série de novidades que não são novas e que até já estão na lei. Como joga, ao contrário do seu adversário, em duas frentes - a presidencial e a legislativa -, era interessante perceber o que defendia e viu-se que não tem nada para dizer ou propor. É só retórica, mentiras e vídeos.




...e música pimba!
Belo texto com o qual concordo.