Uma questão de fundo
Tratamos de uma figura responsável por eliminar desigualdades. Não é coisa pouca.

Apesar de se continuar a falar muito nas desigualdades entre ricos e pobres, a verdade é que elas são, hoje, praticamente inexistentes nas economias ocidentais - e também nas orientais, desde que tenham seguido o bom exemplo daquelas. Deng Xiaoping foi um dos primeiros a perceber o segredo.
A existir alguma diferença, por mais ínfima, será mera percepção e fruto daquela dificuldade em compreender o que alcançámos. Gerações fracas por terem nascido em períodos fáceis.
Para sustentar este tese, tenho um argumento forte. É que estamos todos no fundo. Os pobres estão no fundo. Estar no fundo é, aliás, um clássico da pobreza. Mas os ricos, hoje, também estão todos no fundo. Já os assim-assim, até podem não estar no fundo, mas é quase certo que têm as poupanças aplicadas em algum. Ou a casa, o automóvel, o seguro, entre outros.
Dir-me-ão que são fundos diferentes. Bom, nem seria desejável que estivéssemos todos no mesmo. O que importa sublinhar é que, grosso modo, a igualdade foi alcançada.
Vem esta tese a propósito da novidade que foi anunciada, este domingo, pelo primeiro-ministro: um fundo soberano. O Estado também a ir ao fundo. Se precisava? Não. Mas assim estão os ricos, os pobres, os assim-assim, as empresas e o país.
Para fazer o que fará com o fundo, o Estado já tinha muitas alternativas. Mas nenhuma era um fundo e, convenhamos, tinha de ser. Aliás, como é que não estávamos já no fundo e no fundo soberano, que ainda é mais exclusivo? O país está atrasado em muitas áreas, mas nesta matéria de fundos até devíamos ter sido pioneiros.
Não é só por ser chique, atenção. É porque os fundos unem. Lembro-me da moda das SGPS, que são muito diferentes, sim, sobretudo nesta questão de justiça social. A verdade é que os pobres nunca formaram uma SGPS. Eram os ricos e o Estado.
Mas no fundo estamos todos, de uma maneira ou de outra. E isso é assinalável. Ou, pelo menos, o que se arranja.
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