A oportunidade perdida
O pragmatismo mudou-se para a esquerda e os "intelectuais" estão agora na direita. Ninguém passa na inspecção e seguem todos para abate. Jamais a direita conseguirá resolver o berbicacho que arranjou.

Sinto que se perdeu aqui uma grande oportunidade e que se podia ter infligido uma derrota pesada ao populismo, forçando-o a mudar uma estratégia que dura há seis anos, com muito sucesso, e aparentemente irá continuar. Vamos à explicação do meu ponto de vista.
Cotrim de Figueiredo podia ter passado, em teoria, à segunda volta. Ainda fica longe, mas foi o que ficou mais perto e teve um final de campanha desastroso, logo quando se procurava convencer indecisos. O final de campanha foi particularmente desastroso quanto ao convencimento de indecisos por se ter suscitado dúvidas que não deviam existir.
Entretanto, quem diz que a última semana não terá prejudicado assim tanto o candidato - alimentando uma tese de que era naturalmente fraco -, é doido. Perdoem-me a franqueza e a usurpação de funções, porque não sou psiquiatra, mas é doido. E devemos ter respeito. Eu respeito. Quando me dizem isto, respondo “claro que sim” e depois pergunto a que horas é a próxima medicação.
Ora, muitos dizem que a responsabilidade por este final de campanha em forma de despiste de autocarro - o candidato percorreu o país num pesado de mercadorias, não era Barraqueiro, foi Barracada - é de Cotrim de Figueiredo. Uma nota para dizer que não me refiro, nem me vou referir à questão do assédio. Tem influência, todos percebemos, mas não é matéria de discussão aqui.
Aceito que há uma responsabilidade do candidato, porque numa ou noutra ocasião foi desajeitado e trapalhão, mas não podemos ficar por aí. Cotrim não foi claro quanto à segunda volta. Verdade. Cotrim não disse de André Ventura o que Maomé não diz do toucinho. Verdade. Cotrim nem sequer disse “não passarão”. Pois não. Então é fascista. Populista, pelo menos. Foi sentenciado logo ali, à esquerda e à direita. Ou seja, “não passará” também. Esquecem-se de que, para combater a ameaça populista, talvez seja preciso não hostilizar o eleitorado que foi agarrado. E é preciso falarmos abertamente, sem as peneiras do costume. Não estou em concursos de beleza, não procuro “gostos” nem aprovação.
Estamos com a mesma estratégia de combate ao populismo há seis anos, veja-se os resultados. São as cercas sanitárias, os passarões, e aqui estamos. Cresce a cada eleição. Pode ganhar Belém - eu acho mesmo que pode ganhar, fácil não é, mas tudo pode acontecer e numas eleições recentes apareceram votos que já não víamos há uns anos. Mais de um milhão de votos. Ponham-se a brincar às frentes, ponham.
Regressando ao argumento, pode ganhar Belém e cresce em todas as eleições. Perante isto, o que é que faz o espaço moderado? Mantém a estratégia. Não há um Nobel qualquer para isto? Pode ser o Nobel da Química, porque às vezes parece-me existir alguma entre os populistas e os seus maiores opositores.
Com todo o respeito pelos intelectuais - e tenho-o por muitos, só se perdem nas emoções quando escrevem para casa -, é preciso ser mais esperto nesta matéria. Não podemos hostilizar eleitorados daquela dimensão, com margem para crescer graças ao descontentamento - justiça, saúde, distribuição de riqueza, continua tudo sem solução à vista. A radicalização cresce a cada veste rasgada. Cresce cada vez que alguém diz a outrem que não pode fazer alguma coisa. Então quando se invoca a decência e a superioridade moral, ui, multiplicam-se. Falamos muito de democracia, de diálogo, do debate de ideias, mas depois queremos atirar ao rio, com uns tijolos nos pés, 20% do eleitorado. E isto quando sabemos que o eleitorado anda volátil. Há três ou quatro anos o Partido Socialista teve maioria absoluta. Não é incrível? Vamos do socialismo ao fascismo num ápice, está visto.
A verdade é que Cotrim de Figueiredo tinha margem para crescer e infligir uma derrota ao populismo. Uma derrota pesada, que havia de surpreender o próprio líder populista. Mas convinha usar luvas de pelica, piscar o olho, ser diplomático, não cortar relações. Foi o seu fim. À esquerda, foi logo arrumado e entrou para a lista de alvos do “passarão”. No centro e à direita também foi mandado abater. A direita esquece-se que tem a responsabilidade de resolver o berbicacho que criou.
Logo apareceram as recensões filosóficas sobre o candidato. Na direita, anda-se há anos a afinar a pureza da raça, graças aos complexos que os progressistas da viragem do século conseguiram tatuar-lhes nas costas. Ninguém serve os mais elevados padrões de qualidade de uma elite que não ganha nada, contenta-se a fazer com que outros não vençam. Isso já é uma grande vitória. Ninguém passa na fina peneira dos caciques do pensamento liberal, social-democrata, conservador, democrata-cristão. São todos uma coisa ou outra. Francisco Rodrigues dos Santos podia ter futuro político. Podia, digo bem. Não deixaram. Era iliberal. Alguns saltaram do partido e escreveram uma carta a Garcia. Não podiam compactuar com aquele perigoso… era o quê? Devia ser iliberal e mais alguma coisa má. Foi o espaço da direita moderada e democrática - como se diz - que lhe cortou as vazas. Foi a própria família. E lá vai o CDS para as alminhas, tornando-se nuns Verdes. O populismo sempre a agradecer, porque vai ganhando terreno.
Agora foi Cotrim. Não é liberal, é libertário - foi a “narrativa” que nasceu. Não consigo dizer quantas vezes li isto, nos últimos dias, em mensagens, posts e artigos. A verdade é que Cotrim também não passou na inspecção. É mais um tirano. A tropa entrou em combate, era preciso acabar com esta ameaça à ameaça. Não voou com o “passarão” e pulou a cerca, portanto está arrumado, é envolvê-lo em fita e atirá-lo à barragem.
Esta é só uma desculpa, atenção. A preocupação com a liberdade e com a democracia é apenas uma desculpa, à direita, para os assassinatos. Na maioria dos casos, é mais uma questão pessoal, uma preferência, o gosto de agradar quem nos tatuou as costas ou um simples ajuste de contas.
Se repararmos, à esquerda nada disto se vê. É raro. Acabam sempre por se unir, com algum pragmatismo, em torno de uma figura. Nestas eleições, para não irmos mais longe, deram com algum debate filosófico sobre a matriz ideológica em que se move António Filipe ou Catarina Martins? E nas anteriores? Aliás, há quanto tempo não se discute a raiz do pensamento dos novos comunistas, que se dizem perfeitamente integrados em democracia? Mesmo Jorge Pinto, que é uma novidade, alguém lavrou sentenças sobre o seu posicionamento? A esquerda faz estas reflexões em praça pública? Não faz.
Estes exemplos tiveram pouca expressão eleitoral, é verdade. Falemos então de António José Seguro. A esquerda toda unida à sua volta. Quantas teses de mestrado sobre António José Seguro foram publicadas? Quantas opiniões temos, do espectro da esquerda, sobre Seguro ser tão de esquerda quanto a Thatcher? Não temos, pois não? É curioso. E logo a esquerda, que era conhecida pela sua profundidade intelectual, contrastando sempre com uma direita mais materialista. Está tudo de pernas para o ar. O candidato da esquerda não é assim tão da esquerda, mas ninguém quis saber, porque serve o propósito e parece que bem. Chama-se pragmatismo. E inteligência, também.
A direita podia aprender alguma coisa - até porque, insisto, tem responsabilidade na ameaça populista. Mas ninguém serve. Andam a esculpir o David. Vê-se agora que Cotrim chegava para a encomenda, bastava ter um pouco mais de apoio e menos facadas - ajuda, parecendo que não. Mas aquele não gosta, o outro não aprecia, aquele vai apoiar o diabo porque acha preferível, “eu até ia votar Cotrim, mas…”, deu para tudo. Cumpriu-se a tradição.
O último grande desgosto foi Cotrim não ter virado os votos para António José Seguro no discurso da noite eleitoral. Confirmou-se então - dizem - o deslize da campanha. Cá está. Apanhado, mais uma vez. Foram duas vezes na mesma semana. Ninguém era apanhado duas vezes na mesma semana desde o rei dos catalisadores. Como Cotrim não endossa os votos, é porque apoia Ventura ou porque lhe é diferente. Claro, assim simples. Está despachado.
Longe vai o tempo em que os líderes partidários eram donos dos eleitores e diziam em quem votar, se fosse preciso tapando a cara. Ninguém quer isso, ninguém quer ficar nessa posição. Estou certo que as candidaturas vão dar sinais. Já estão a dar, com alguns apoiantes próximos. Mas o sindicato dos moderados exigia que tivesse sido ontem, no discurso. Tinha de ter sido ontem, tinham de ter montado a cerca logo ali. Percebo e sou capaz de concordar se me der para a emoção. Mas é a tal hostilização que nos tem trazido até aqui. Fazer as coisas à bruta, sem estratégia alguma. E as batalhas a perderem-se todas.
O primeiro-ministro - que coincide com o líder do PSD - esse sim, devia ter dado sinais claros daquilo que considera mais seguro. O primeiro-ministro, antes de ser líder do partido, é primeiro-ministro. Ocupa um alto cargo e tem responsabilidade quanto à estabilidade das instituições democráticas. Pode ser demitido se elas estiverem em causa. Era sua obrigação - e continua a ser - ter um discurso mais firme e claro. Ao contrário dos candidatos, e mesmo sendo líder de um partido, não pode andar em combates no terreno, à conquista de eleitorado. Tem esse objectivo, sim, mas espera-se que seja por influência de bons resultados políticos e não por campanhas. Tem de ser sempre institucional, mesmo quando está como líder do partido. Sobre a escolha de Marques Mendes, foi óptima. Uma desgraça que se inscreve nesta inteligência militar à direita que aqui estou a elogiar.
Nos próximos dias, nesta campanha para a segunda volta, o apocalipse será anunciado todos os dias. Não é que não concorde com esse prognóstico, só não concordo com a estratégia, porque será uma fábrica de radicalismo e vontade de partir o regime em quatro. Será uma campanha de decentes contra indecentes. Um erro que vamos lá ver onde desemboca.
Perdeu-se uma oportunidade, sim. Nestas eleições, apoiei Cotrim de Figueiredo e não me arrependo. Não sou liberal, nem libertário. Não voto Iniciativa Liberal, voto à esquerda e à direita. Votarei Seguro. Mas sinto que se perdeu aqui uma grande oportunidade de começar a derrotar o populismo em Portugal. Com mais apoio do centro, que se assustou com tantos boatos e correu para Seguro, até podia ter sido Ventura a ganhar a eleição, mas talvez fosse a uma segunda volta com Cotrim. Ora, tal desfecho era o pior que podia acontecer à estratégia de André Ventura. Com Cotrim de Figueiredo em Belém - isto se ganhasse, porque acho que a revolta em alguns sectores é tal que talvez nascessem alguns apoiantes envergonhados de Ventura, graças ao voto secreto -, com Cotrim em Belém, dizia eu, Ventura era obrigado a mudar a estratégia toda.
O líder populista deixava de poder andar a lutar contra o socialismo, como já ensaiou ontem no discurso. Seguro, nesta campanha, será o candidato do PS e do Governo, ao mesmo tempo. André Ventura será o líder da oposição ao Governo e ao PS. Isto é muito perigoso, mas a bomba está fabricada e em contagem. Desmintam-me, por favor.
Em Belém, que era onde eu já ia, Seguro vai dar deixas a André Ventura todos os dias, querendo ou não. É inevitável. Este era o melhor resultado para o populismo e ontem viu-se na euforia da vitória. Ventura já ganhou a segunda volta. Ganha se ganhar e se perder. Com Cotrim de Figueiredo no Palácio de Belém, como é que podia contestar cada decisão com os 50 anos disto e daquilo e mais o “socialismo que mata”? Era obrigado a arranjar outra cantiga. Podia ser o princípio do fim desta onda.
Mas os intelectuais de esquerda estão agora na direita. O pragmatismo não existe. Existe, aliás, em Ventura. E aí vai ele. Abram alas. O simpático Seguro, homem de pactos, terá de comer e calar. Até lá, promete unir os portugueses, mas já disse que há um oceano de diferenças. É uma forma de começar a unir, pronto. Havia outras. O resultado da segunda volta, mesmo que seja positivo, dificilmente revelará união. O mais certo é espelhar a divisão. E por maior que seja a diferença, será sempre um contra o resto do mundo. Quando o resto do mundo se dividir, o que inevitavelmente terá de acontecer, quem é que reina?
Perdeu-se uma oportunidade de virar o jogo.



Aqui, é mais do Cotrim que de fala. E não me parece que a culpa seja nossa. Na política, isto apenas um erro crasso e infantil, ingénuo, até, com o peso de uma suspeita que colocaria um hipotético presidente de Portugal a prestar contas em tribunal, por assédio, com ou sem razão. Lamento. A culpa não é mesmo minha. Porque se o praticou, o assédio , para além de se expressar deficientemente quanto a Ventura, pior que Isso é tê-lo negado, se fôr culpado. E lamento, ele foi, ao que parece, quem foi a jogo, com um nuvem no imaculado comportamento. Com um grande esqueleto no armário. Não é fácil deitar para trás das costas. A mulher de César, não basta ser honesta. Tem de o parecer, também. E Cotrim, subitamente pareceu um candidato fraquito. Tonto. Muito Ego e muito disparate. Quando assim é, já estragou. É o que fica. É assim que funciona. Agora é procurar outro D. Sebastião, que este também desapareceu. E o gajo irrita-me, porque podia mesmo ter infligido uma derrota memorável a Ventura. Que, veja -se bem; só diz merda, mas não se lhe apanha um esqueleto pequenino que seja para o arrumar de vez.
Zé Pedro, o problema desta tese é que ela parte de uma intuição que a realidade europeia já provou ser falsa. Tu dizes que a 'cerca sanitária' é uma oportunidade perdida, mas basta olhar para os países que decidiram 'trazer a direita radical para o debate' ou para o governo (como na Suécia ou na Holanda) para perceber o que acontece: a direita radical não se modera nem um milímetro. Quem se radicaliza é o centro, que começa a usar a linguagem deles para tentar sobreviver.
Não é uma questão de moralismo da esquerda; é uma questão de eficácia. Quando lhes dás o palco e aceitas discutir os temas nos termos deles (a tal 'propriedade do tema'), já perdeste o debate antes de ele começar. Estás a validar que as soluções extremas são opções legítimas.
O que realmente trava este crescimento não é 'ser simpático' ou 'não isolar', é dar segurança económica e respostas concretas às pessoas. Tudo o resto é dar oxigénio a quem só quer incendiar a casa. Menos 'achismos' sobre o que as pessoas sentem e mais atenção ao que a história recente nos mostra: quem tenta domesticar o populismo radical acaba sempre por ser devorado por ele.
Votos de um futuro Seguro!