Jogos de alto risco
Canais premium na residência oficial, mesmo valendo oito mil euros por ano, são uma ninharia. O problema é que várias ninharias fazem uma fortuna. Ou um azar.

As lojas de electrodomésticos, hoje em dia, são enormes. São grandes superfícies. Quando eram mais pequenas e tinham montras, não eram poucos a ir para lá ver jogos de futebol. Nas Amoreiras, pelo menos, lembro-me bem. As senhoras iam fazer as compras e os senhores ficavam a ver o jogo - era assim que era, não posso fazer nada - na montra daquela loja de esquina, ao pé do então Jumbo.
Ocorreu-me esta memória quando tomei conhecimento da quantidade de televisões que há, com a SportTV, na residência oficial do primeiro-ministro e ainda mais uma no gabinete do Governo na Assembleia da República. São muitas televisões capazes de transmitir jogos de futebol, coisa que, não sendo um luxo, também não é uma bagatela. Eram oito ligações e já vinham de governos anteriores, não foi este executivo que teve a ideia, apesar de também ser responsável pela sua renovação. O valor, para os próximos dois anos e meio, rondava - foi alterado - os vinte mil euros. Um absurdo e estamos a falar apenas do palacete de São Bento e do gabinete do Governo na Assembleia da República. Haverá, suspeito eu, mais subscrições por esses ministérios fora. Oxalá mais frugais.
Ora, deve a residência oficial do primeiro-ministro ter canais de televisão pagos, neste caso de desporto? Claro que sim. É uma residência oficial, são lá recebidas muitas pessoas. Também se dão jantares e não é um restaurante. Diria que a residência oficial do primeiro-ministro deve ter acesso a todos os canais, assim como a todos os jornais. Agora… oito ligações e cerca de oito mil euros por ano para um canal de desporto? Quem é que aprova isto? O primeiro-ministro já mandou reduzir de oito ligações para duas, passando o valor total para a ordem dos cinco mil, mas quem é que aprovou? Porque as mudanças são conhecidas depois das críticas e só por causa delas.
Na verdade, não estamos a discutir canais de desporto ou subscrições premium, o que está aqui em causa é o respeito que se tem ou não pelo erário público, pelo dinheiro dos contribuintes. Quem aprova uma coisa destas, aprovará outras quejandas. Trata-se de uma cultura de desperdício que representa muito mais de oito mil euros por ano. Mais, com certeza, de oito milhões. E de oitenta. Não se poupa, nem se gere, porque se concebe o poder como uma vantagem, um direito, um privilégio. A ideia de missão, o serviço público e o bem comum são meras figuras da retórica. Quando a isto se junta a soberba de acreditar que o país nunca conheceu governantes tão bons, tudo então é justificado e não chega. Ainda se deve ficar com uma dívida, para além da de gratidão.
Quando discutimos o crescimento dos populismos potencialmente autocráticos nas democracias ocidentais, é também por aqui que eles se explicam. Há teses de que o radicalismo já corria no sangue do povo, que só ganhou coragem ou perdeu a vergonha, mas creio que tais teses não batem certo com décadas de escolhas democráticas e moderadas no pós-guerra, numa estabilidade política que só projectos independentistas iam abalando.
Colhe muito mais, para mim, a tese de um descontentamento cada vez mais sólido e incontornável, que encontra em tantas desigualdades razão para continuar a crescer e admitir ou conformar-se com o desconhecido. Pior: não só as desigualdades são cada vez maiores, como são cada vez mais visíveis.
O despesismo, que é apenas uma das variáveis deste descontentamento, quebra a confiança que é essencial em todas as relações, também no contrato que existe entre governantes e governados. Podemos governar melhor ou pior, ter mais ou menos sucesso, mas é sobretudo a ideia de que não se está a preservar o bem comum que gera revolta, sendo capaz de provocar danos irreparáveis no sistema.
Tais consequências são sempre mais perigosas quando não se vive em abundância e quando as crises se sucedem. Em Portugal, temos obstáculos difíceis pela frente e acaba tudo de ficar ainda mais complicado com a desgraça das tempestades; desgraça essa que pode estar a formar outra, porventura perfeita.
Entretanto, torna-nos ainda mais imprudentes o facto de nada disto ser novo na nossa história recente. A monarquia não resistiu ao descontentamento do povo com a pobreza e as desigualdades, enquanto a nobreza e as elites conservavam os seus privilégios. Não se falava então - creio eu - de percepções, mas estivessem elas certas ou erradas, deram cabo do regime.
Mais tarde, o Estado Novo também deve o seu fim ao descontentamento generalizado, neste caso muito centrado na questão da guerra colonial, mas o atraso do país, cada vez mais difícil de esconder, não foi indiferente para o incontestável apoio popular à revolta dos militares.
É e será sempre assim.
Em todo este contexto, canais premium na residência oficial, mesmo valendo oito mil euros por ano, são uma ninharia. O problema é que várias ninharias fazem uma fortuna. Ou um azar. Em alta definição.



Tal como dizes são essas pequenas coisas que alimentam o populismo. E os populismos não são todos maléficos. Eu sempre achei que há muitas despesas do governo, parlamento e presidência que podem ser cortadas. Frotas de carros, por exemplo. Serão preciso tantos? E topos de gama? Um Fiat Panda não chegava? E transportes públicos não servem? Não é num daqueles países nórdicos que os governantes os usam regularmente? Muitos vêm dizer que isso seriam medidas que não teriam grande impacto nas contas públicas. Mas mesmo que não tivessem grande impacto nas contas, teriam grande impacto na percepção. Porque é sempre o povo a apertar o cinto e a corte a comer caviar.
Bom dia. Faz parte da genética lusa. O Mário Soares nas imensas visitas de estado ao estrangeiro, que somadas deram umas voltas ao mundo, levava sempre o avião a abarrotar do bom e do melhor. E nos tempos áureos de Portugal, há uns séculos, a delegação inglesa ficou atónita com o luxo e esbanjamento da corte, quando mandavam pela janela os apetrechos valiosos. Mas a arraia miúda estava por debaixo da janela para apanhar os mesmos. É genético e hereditário. Não venham com a conversa de que é por causa dos governantes actuais desde 74, que Portugal não anda nem para o Polo norte, Polo sul, ou Polilon.