Nem a brincar
Não interessa se é sátira ou propaganda. Contra a desinformação, a verdade tem de circular mais depressa. Ora, a Justiça é lenta e queixas é para queixinhas. A solução já existe, chama-se imprensa.

Quando se aproxima uma tempestade, há alertas e recomendações. As recomendações são sempre iguais, claro. Em teoria, as autoridades podiam dizer, para poupar recursos, “já sabem o que têm de fazer”. Na prática, é melhor relembrar. O mesmo se passa com as discussões em torno dos limites do humor e da sátira. Aparecem com a frequência das tempestades e também se diz sempre o mesmo.
Isso poupa-nos algum trabalho perante mais um escândalo cómico. Ou do foro da comédia, melhor dizendo. O caso explica-se rapidamente. O Governo vai apresentar queixa contra uma conta numa rede social que publicou o que parecia ser uma mensagem de Luís Montenegro para Donald Trump. O primeiro-ministro estava disponível para despachar os Açores. A semelhança com uma mensagem real levou muita gente a confiar que se tratava de uma mensagem verdadeira. O Governo ficou preocupado e então “chamou a polícia”.
Para afinar o enquadramento, diga-se que o autor da imagem é conhecido nas redes sociais por produções de sátira política - às vezes só políticas, creio - com uma tendência que já se imagina qual é. Contra a direita, pois. Se fosse contra a esquerda, por exemplo, diria que o Governo não apresentava queixa. É só uma desconfiança que eu tenho e este é um dos problemas do caso.
Publicando eu sátira há mais de 20 anos, tenho uma ou outra coisa a repetir-me sobre o assunto, pois não ignoro nenhuma crise desta índole. E o tema interessa, parecendo que não. Desenham-se, a cada debate, os limites. Ainda há dias aqui reclamei, em relação a outro assunto, que nunca me censurei tanto. Não digo só na Imprensa Falsa, mas aqui e em todos os conteúdos em que participo. Já não podemos dizer o que pensamos sem pensarmos no que vamos dizer ou sem admitirmos todas as leituras possíveis. É pena e gasta-se muita tinta e tempo a justificar ou clarificar o que se está a dizer.
São tempos especiais. Se uma pessoa diz “bom dia”, em princípio está satisfeita com a situação política, o que é uma vergonha, porque o populista tem sessenta deputados. Estamos quase nisto. Já faltou mais para se dizer “bom dia” e levar uma desanda. Eu já só digo ‘diiiia. Desta forma, só com ‘diiiia, não se pode concluir que ignoro os desafios políticos e sociais que o mundo atravessa ou até que me congratulo com a situação.
Voltando à sátira, estou entre os conservadores. Acho que o humor tem limites, não é um salvo-conduto. Não defendo limites para ninguém - quando não gosto, risco -, mas para mim, sim. Quero estar satisfeito com o que fiz. Não quero estar desconfortável, nem ter sido injusto. Na noite eleitoral, publiquei uma notícia sobre Marques Mendes e quase não dormi - há aqui algum exagero. Fiquei chateado. Só me ocorreu uma gracinha com um dos candidatos derrotados. Prefiro atirar-me aos que ganham, aos poderosos. Aquele já está no chão. Não foi o meu voto, critiquei bastante Marques Mendes em espaços que merecem respeito, mas preferia ter feito outra notícia no tempo que tive para me dedicar à sátira na noite eleitoral. Uma sobre os vencedores. Foi a que se arranjou, porém. Jamais isto seria um limite, mas um objectivo talvez seja.
Por falar nelas, também não gosto de agendas. Nunca tive, mesmo quando tinha. Tem de ir tudo à frente. E vai. Mesmo assim, claro, recebo acusações de ser tendencioso. Na era de António Costa, era direitolas. Hoje sou esquerdalha. Fico orgulhoso quando oiço isto, porque estou a trabalhar bem. Estou, em geral, contra o poder. É como deve ser.
O único interesse deve ser animar, divertir, informar (sim, acontece), suscitar uma reflexão ou fazer uma crítica. Mais uma vez, cada um faz o que quer, só exerço o meu direito de não gostar e de desenhar regras para mim. Não sou fã de misturar arte com propaganda, embora a propaganda possa ser artística. Mas então é propaganda, antes de tudo.
Uma coisa, sim, acho que deve ser regra geral: o humor e a sátira devem estar bem assinalados. Não se deve promover a confusão, temos de ser claros. Meter luzes a piscar. Se a ideia não é enganar, então temos o dever de fazer por isso. Evitar todos os enganos é impossível, garanto eu que tenho um jornal chamado Imprensa Falsa e mesmo assim não percebem, mas tem de ser feito um esforço, seja a carregar no absurdo, seja nos títulos, seja com avisos expressos. The New Yorker fazia-o com o Andy Borowitz e mesmo assim acabou com aquele espaço, suspeitando eu que foi porque o autor começou a fazer política com a sátira. É uma suspeita, apenas.
Recentrando: tanta sinalização, porquê? Para podermos continuar a trabalhar. Com a quantidade de informação e conteúdos que há hoje - e ainda não chegou o tsunami da inteligência artificial -, a confusão é grande. Pelo meio, mete-se sempre a desinformação - falo da mal-intencionada. Se calha sermos confundidos, é o fim. Na pandemia, por exemplo, foi o que aconteceu. Com a preocupação que havia com a desinformação, fechou-se a torneira a tudo o que era suspeito. Algumas torneiras não se voltaram a abrir como antes. O próprio Google - não a empresa, mas o motor de busca - limita muito certos conteúdos. E posso garantir que o Google, sozinho, sustenta muitos jornais e revistas.
No caso mais recente e que nos trouxe até aqui, creio que falamos de um conteúdo satírico-propagandístico que podia ser um pouco mais evidente. Diz-me a experiência que não foram poucos a cair naquela graça, tanto pela forma como pelo conteúdo. Não é assim tão absurdo e reproduz fielmente uma mensagem (neste caso, numa rede social), apenas com a indicação lateral da página responsável. É fácil enganar, sobretudo quando começa a ser partilhado em mensagens - coisa frequente, diga-se.
Tecnicamente, portanto, acho um erro. É a minha opinião, sem nenhuma intenção de proibir ou condenar. Só não aplaudo a obra, pois precisava de apertar mais um bocado. O presidente dos Estados Unidos da América impôs tarifas comerciais a pinguins, caramba. A audiência está confusa, temos de perceber e trabalhar mais. A boa notícia é que também não aplaudo o primeiro-ministro, que põe o Governo a apresentar uma queixa. No lugar de Montenegro, ou de Leitão Amaro, sentindo que a informação estava a ser partilhada e a enganar muitos incautos - admito que o tenham percebido -, teria usado os meios do Governo para desmentir e explicar. Através da imprensa, da agência de informação pública e das redes sociais, tinha esclarecido amplamente, fazendo talvez alguma pedagogia. Há uma responsabilidade de quem faz humor e sátira, sim. E até de quem faz propaganda. Se um governo percebe que há muitos cidadãos - particularmente açorianos, imagino - a pedir explicações sobre a suposta intenção de venda dos Açores, deve intervir. Com uma queixa? Não.
O recurso à Justiça, antes de qualquer outro meio - tanto quanto sei, o autor não foi contactado nem o Governo emitiu qualquer explicação ou aviso para a desinformação -, tem consequências que devem ser evitadas por órgãos de poder com a responsabilidade de defender os valores da República. Autores e criadores, perante isto, ficam com um receio que não deviam ter. Pior: não conhecem as regras nem os limites. Em que condições o Governo apresenta queixa? Eu publiquei ontem que a “Queixa de Montenegro sobre falsidades foi apresentada na Autoridade da Concorrência”. Pode? Não pode? Não sabemos. E a dúvida não é boa.
Sei que estou bem identificado - ando quase de reflector -, mas também sei que, mesmo assim, muitos leitores são lamentavelmente ludibriados. Arrisco-me a levar com uma queixa? Ninguém quer, não é? Até dá publicidade, mas não compensa o que se vai gastar na defesa. Uma queixa do Governo não é brincadeira.
Pergunto, por isso, se não podiam ter começado por outro lado. E tenho ainda outra dúvida: sendo o objecto da queixa uma produção de alguém que há muitos anos “trabalha” para a esquerda, não é legítimo entender esta decisão como uma vingança depois de tantas “obras”? Na praça pública, sem surpresa, quem apoia o Governo condena o autor, quem está contra não. E não saímos disto.
A terminar, com a proliferação de meios e recursos - a inteligência artificial, desde logo -, estes conflitos serão cada vez mais frequentes. Estes e outros. A resposta não pode estar nas queixas. Não é solução. Temos a imprensa para difundir rapidamente informação. É para isso que ela serve. Temos de correr riscos, deixar a criação artística e literária - ainda que tendenciosa - fluir, agindo quando há essa necessidade. Quando o vírus saiu do laboratório.
Sempre que circula desinformação, é na imprensa que temos de confiar para fazer chegar a verdade a qualquer lado. Seja uma sátira ou um discurso político. O primeiro-ministro, há uns dias, no Parlamento, enganou o país com a compra de centenas de ambulâncias que, afinal, não era bem como dizia. É apenas um exemplo, tenho mais. Não sei se algum autor satírico já apresentou queixa contra o primeiro-ministro, mas devia. Quanto a partidos que usam a mentira e a manipulação para crescer, também tem de ser a imprensa a entrar em campo. Nunca a imprensa esteve tão ameaçada e foi, ao mesmo tempo, tão importante. Há muito a fazer, muitas coisas a melhorar - mesmo muitas -, mas o que fará a diferença é a imprensa livre e independente. É essa que temos de defender, sendo exigentes. É essa que o Governo também devia ter defendido, porque não pode fazê-lo apenas com subsídios e apoios às assinaturas. É valorizando-a, metendo-a na frente da batalha pela verdade. Pelo menos, antes de um recurso que devia ser o último. A Justiça, em forma de queixa.



As interpretações, pessoais, do que se lê, é uma "tradição" que já vem de longe. Recordo-me de, antes do 25abril, o pessoal andar à procura do que o autor queria dizer com o que escrevia. Era o chamado "ler entre linhas" e era motivado, claro, pela censura. Ainda hoje tenho essa mania.
Em relação aos limites, já aqui falámos e acho uma situação complexa de resolver. Eu acho que cada um é que impõe os seus limites para si e, nos outros, se não gosta, põe de lado. Há exceções, claro...
No caso vertente, a coisa é mais simples de explicar. O chico-esperto que nos governa, está com um problema presidencial. Dizem as népes, que sempre estás com um problema, político, arranjas uma diversãosita para o pessoal se entreter e não chatear. E prontos!
Só que entrámos todos a galope pela geração clickbait à qual todos pertencemos, independentemente da idade. Julgo que já mais novos, por todas as razões, são os mais vulneráveis e, consequentemente, serão no futuro, uma espécie de geração Trump. Mentiras para obtenção de interesses. Ler, custa. Jornais? Imprensa? O que é isso? Morde? E assim, cá vamos, cantando e rindo, imersos no imediatismo bacoco, vazio, fácil e perigoso. Julgamento antes, razão, ou depois, ou talvez nunca. Sinceramente, o mundo enlouqueceu de vez e promete piorar. Os jornais batem-se pela seriedade e pela sobrevivência, nas trincheiras da verdade, uma coisa que em termos foi a regra na informação ou quase. Mas é tipo Exterminador Implacável, julgo que já perderam a guerra.