Seguro sem amarras
O centrão funciona como o anticiclone dos Açores. Também vai oscilando, evitando algumas tempestades. Acaba de travar uma, mas sabemos bem que não trava todas.
Está eleito o novo presidente da República, apesar de ainda faltarem 30 mil votos. É por aí que começamos. A democracia não deve ser uma prova de obstáculos. No limite, colocavam-se as mesas de voto em cima de montanhas e era preciso escalar para votar. Ou tínhamos de descobrir a nossa mesa de voto, que podia estar em qualquer parte do país. A expressão “caça ao voto” ganhava um novo significado.
Na situação em que o país se encontra, o sistema eleitoral deve ter mecanismos para adiar, dentro de um prazo, os actos eleitorais. Isto não é contra a democracia nem favorável a golpes. Entramos sempre no histerismo do costume. A realidade é que temos cerca de 30 mil eleitores que não votaram e que, com certeza, já não vão votar. O presidente está eleito.
Quando se diz que todos os votos contam e que todos são importantes, o que acaba de acontecer é a completa negação desta ideia, que já soava a história para adormecer. Na verdade, não queremos saber, é indiferente. O país real, no interior abandonado, não conta. Aquelas populações tiveram uma resposta à tempestade que tardou; em relação à incapacidade de votarem neste domingo, votam depois de eleito o presidente. Não devia ser assim. Também não devíamos ter eleitores em botes e tractores a caminho da mesa de voto. Isto é um país que não sabe gerir uma crise e que invoca a democracia ao calhas. Não se tratava de adiar eleições, como se fosse sine die, e as comparações com o tempo da pandemia também foram, perdoem-me a franqueza, do foro da anedota. Naquele tempo, não se via o fim da pandemia no horizonte, um adiamento podia ser muito prolongado e isso, sim, representa um risco político.
Mas não há pandemia alguma - excluindo a do histerismo colectivo com tudo -, pelo que se tratava aqui, muito simplesmente, de avançar uns dias para o país se recompor um pouco. Só isso. Apenas isto. Nada mais. Não era um golpe de Estado. Eu, pelo menos, não planeei nenhum, reconhecendo, ainda assim, que já imaginei vários. Sei que o candidato populista também defendeu esta solução, mas eu não me guio pelo que diz o candidato populista, ainda que seja na sua negação.
Adiante. Quase todos os portugueses puderam escolher o seu presidente e a opção foi pela estabilidade política e pela defesa do regime. António José Seguro não aquece nem arrefece, mas cumpre calendário e a missão de não romper com nada. É uma vitória folgada que se deve ao facto de o candidato ter conseguido, como era esperado, reunir simpatias muito para além do seu espaço político, não necessariamente socialista - se formos rigorosos com os termos -, mas de centro-esquerda. Seguro recolheu apoios muito variados, de marxistas a democratas-cristãos. Em teoria, um político tem de falecer para conseguir algo semelhante.
Será o efeito Seguro ou o efeito Ventura? Diria que ambos, porque já interiorizei o registo do novo presidente e agora fujo às questões. Quando se diz que não se votou tanto por Seguro, mas mais contra Ventura, não sendo mal visto, diria que se ignora que muitos outros candidatos daquele espaço jamais teriam o mesmo sucesso. Até podiam vencer, mas não seria a mesma folga, com votos brancos e nulos a crescerem. Esse mérito é, sem dúvida, de Seguro. Foi ele que conseguiu chegar a tantos e não foi apenas na campanha, foi com a postura que tem desde há muitos anos, a maior parte deles na sombra, que também pode ajudar.
Para se tentar imaginar o mandato do novo presidente da República, o seu discurso de vitória dá boas dicas. Pontes, consensos, estabilidade, pactos, concórdia e muito chão comum, quando os portugueses precisam é de tectos. Seguro fala bem e muito, sem dizer quase nada. É outro segredo do sucesso. A entrada sobre as vítimas do mau tempo é inteligente e faz-nos acreditar, durante quase 10 minutos, que estávamos todos enganados e que se elegeu um presidente forte e determinado. Contudo, quando se avançou no discurso, voltou-se ao Seguro que conhecemos. Será exigente, mas a exigência não resolve nada sem consequência. Eu posso exigir muitas coisas, mas o que faço se as exigências não forem cumpridas? Vamos supor que eu ligo neste momento para Miranda Sarmento e exijo o que resta dos fundos do PRR na minha conta até ao fim do dia - e convém não esperar por essa hora porque às vezes a aplicação falha. O ministro das Finanças perguntar-me-á, com certeza, o que faço no caso de não receber o montante. E eu respondo: “absolutamente nada, senhor ministro, e recomendo que não me teste.”
É improvável que receba o dinheiro, mas mais logo ainda vou ver.
Por exemplo, na legislação laboral, não se alcançando um entendimento que mude algumas normas, Seguro veta politicamente. O Parlamento confirma. Pronto, foi a Constituição, está resolvido. Ou seja, não imagino que Seguro se atravesse diante de ninguém, nem de nada, por causas. Pode tentar travar, mas se for abalroado, pronto, foi abalroado. Levanta-se, sacode o pó, e vai à sua vida.
Entretanto, José Luís Carneiro tem um bom discurso no Largo do Rato, chegando a sugerir entendimentos com o Governo nas principais áreas. Naquele contexto, em que já se conhecia a derrota de Ventura, permitiu que o primeiro-ministro desse a estocada final no Chega. Bastava Montenegro aceder ao convite para falar, mostrando disponibilidade para trabalhar e escolher o Partido Socialista como parceiro preferencial. A derrota do Chega, ontem, tinha tomado proporções sérias. Ventura acabava a comentar o jogo do Benfica e negava ter passado pela política, alegando que tínhamos todos sonhado.
Claro que Montenegro, discursando estranhamente como chefe do Governo, não responde ao repto e coloca os dois - PS e Chega - em plano de igualdade. Já tinha sido neutral na segunda volta e promete ser também na governação. Salvou André Ventura de uma vergonha maior. A tábua de salvação do populismo, neste momento, é Luís Montenegro. Não creio que seja o PSD, o CDS talvez, mas Luís Montenegro, que ganhou eleições a prometer distância, aproxima-se a grande velocidade. O discurso continua arrogante, sendo um primeiro-ministro sem maioria que fala como se tivesse 460 deputados em 230. Joga com a instabilidade, mostrando mais sentido de partido do que de Estado.
Por fim, André Ventura. Começamos pelo primeiro André Ventura da noite, que foi o que saiu da missa. Vinha humilde e derrotado. Já no hotel, terá levado uma injecção do deputado Frazão, e aparece um segundo André Ventura, que faz um discurso vitorioso. Ganhou ânimo, votos, teve mais percentagem do que a AD - seja lá o que isso for - e agora sabe mesmo que vai ser Governo.
Pela minha parte, não subestimo o populismo e creio que teve uma grande votação. No jogo das frentes, que sempre me pareceu um risco, acaba por ter votos suficientes para chegar ao poder. Não ultrapassa a AD, mas está na fronteira de uma vitória. Os votos em Seguro dissolveram-se ontem - creio que ele próprio disse qualquer coisa do género, mas no sentido de ser agora o presidente de todos -, os de Ventura podem ou não consolidar-se. Convenhamos que o voto em Ventura é um voto muito diferente de todos os outros. Quem ousou fazê-lo ontem, estará disponível para repeti-lo. Pelo contrário, o voto em Seguro foi descartável.
Tento, mas não consigo subscrever a tese de que André Ventura tem uma derrota épica. A derrota é incontornável - e insisto que podia ter sido maior se Montenegro fosse a jogo -, mas é preciso olhar para a frente. Estamos na fronteira dos dois milhões de votos. Se juntarmos a isto alguma moderação e o aparecimento de figuras, atraídas por este potencial, capazes de dar crédito ao movimento, é definitivamente um partido de poder. O Chega consolidou-se como um partido grande, o tripartidarismo instalou-se de vez. Mais: o actual Governo tem o apoio de dois partidos. António Costa precisou de três durante muitos anos. O Chega espreita a governação sozinho, sendo preciso que a oposição se una para o tramar, citando Rui Veloso, que não afirmou tal coisa no contexto de uma análise a estas eleições. Isto não é, na minha opinião, uma derrota estrondosa. Derrota estrondosa era André Ventura ter tido 600 mil votos. Tem, para já, 1.729.371.
A boa notícia é que o eleitorado português anda volátil como uma criptomoeda, apesar de um centrão forte de refúgio. Em 2022, os portugueses deram uma maioria absoluta ao Partido Socialista, em 2025 escolheram uma maioria parlamentar de direita e em 2026 escolhem para presidente uma figura da esquerda, sendo que, em eleições legislativas, a maioria seria claramente de direita. Todas as eleições têm as suas particularidades, mas estes movimentos são interessantes.
O centrão funciona como o anticiclone dos Açores. Também vai oscilando, evitando algumas tempestades. Acaba de travar uma, mas sabemos bem que não trava todas.




A mobilização de ontem provou que o adiamento das eleições não só não era necessário como não era sequer adequado. Nem na pandemia ocorreu tal coisa e nessa altura havia centenas de milhares de pessoas impedidas (impedidas mesmo) de votar. Muitas vezes concordo consigo, mas desta vez não consigo compreender a insistência neste ponto.
Não concordo que coloques uma dimensão pequena na derrota do Ventura que, com muita piada, ouvi chamar do Trump da Temu". Repara:
- não chegou aos votos do Seguro na primeira volta,
- não chegou aos votos da AD,
- não ganhou nenhum distrito,
- mesmo a vitória no estrangeiro teve uma diferença menor para o Seguro do que na primeira volta,
- teve menos de metade dos votos do Seguro,
- teve um apoio encapotado do Montenegro e do aí jesus da direita.
Tudo isto depois de ter levado até ao extremo a conversa da balbúrdia, da corrupção e dos emigrantes. E de ter sido num mano a mano com um homem desconsiderado por todos, inclusive o próprio partido.
Se isto não é uma derrota em toda a linha do Ventura e do que ele representa, não sei o que será. Tem mais valor o resultado dele na primeira volta do que este.
Apetece até perguntar, tal como na anedota da hiena, ontem o Ventura ria-se de quê?
Isto não significa que ele está arrumado. Significa apenas que ele não é tão bom (ou tão mau) como parecia e que os partidos tradicionais têm um balão de soro que convinha não desperdiçar.
Quanto ao Montenegro, é o mestre da chico-espertice. Está tudo dito.